Quando chegamos a Nairobi para participar do Fórum Social Mundial, entendemos porque Paul Tergat ganhou tantas vezes a Maratona São Silvestre e os quenianos sempre se destacaram em corridas. O ato de andar quilômetros faz parte da dinâmica da vida de milhões de quenianos. Era incrível a cena vista em todos os cantos da cidade. Multidões de Homens, mulheres e crianças caminhando, em contraste com as vans e micro-ônibus (um sistema de transporte precário e incipiente) que rasgavam as ruas e avenidas em mão inglesa, num transito louco e intenso.
O povo se movimentava sob um sol escaldante, mas os homens sempre vestidos de paletó e gravata e as mulheres com vestidos sempre muito abaixo do joelho davam sinais das contradições culturais, fruto da forte presença das igrejas protestante, evangélica e católica. Também faziam parte da cena, que revelava, a presença islâmica no grande caldeirão cultural religioso. Mas foi o povo Massai, o maior grupo étnico do Quênia que encantou a todos. Mulheres belissimamente vestidas com tecidos coloridos e complexos adereços feitos de miçangas revelavam a força dos povos originais que resistiram à colonização inglesa e outras influências e continuaram sendo a singularidade e a alma do povo queniano.
A extrema concentração de renda aparta as pessoas. O centro de Naiorobi comporta os melhores hotéis internacionais, a exemplo do Hilton. O prédio das embaixadas, o grande e moderno centro de convenções e o Hururu Park, montram que Nairobi é uma capital com condições de abrigar eventos internacionais de grande porte. Entretanto, a miséria de Kibera, a maior favela do lugar, abriga cerca de 800 mil pessoas revela o tamanho da exclusão social, conseqüência dos anos de ocupação inglesa e de um modelo de reconstrução do país focado nas políticas neoliberais pelos governos de centro direita que exercem o poder atualmente, colocando os interesses de corporações privadas e de indivíduos endinheirados acima do direito da maioria do povo.
O Fórum e a luta anti-racista
O Foúrm social Mundial, que pela primeira vez aconteceu num país africano, além de uma ação política de grande relevância, que une povos na luta contra o neoliberalismo e o imperialismo, foi, mais uma vez, um grande encontro de culturas e um momento singular para se quebrar preconceitos e se conhecer melhor a África.
O Centro Internacional de Esportes Kasarani, em Nairobi, tornou-se sede mundial do pensamento político de que UM OUTRO MUNDO REALMENTE É POSSÍVEL. Mais de mil atividades autogestionadas foram realizadas na 7a edição do Fórum Social Mundial. Entre elas, a mesa redonda promovida pelo Instituto Maurício Grabois e a fundação Perseu Abramo, que discutiu as relações África Brasil que contou com a minha participação e a participação da Ministra Matilde Ribeiro.
Vale destacar o grande encontro promovido pela Coordenação Nacional de Entidades Negras (CONEN), que reuniu militantes do movimento negro com o ator estadunidense Danny Glover. Respondendo a um questionamento da UNEGRO, o ator expôs suas opiniões reconhecendo as responsabilidades do governo americano em relação ao recrudescimento do racismo e a precarização da vida no planeta, a partir da sua política belicosa, que desrespeita o direito de autodeterminação dos povos. Foi um debate intenso e muito produtivo. As posições políticas do ator e da organização que ele faz parte – a TRANS-ÁFRICA - contrárias às ações de Bush e favoráveis a um caminho não liberal para o povo americano, ficaram explicitadas. O TRANS-ÁFRICA está sob a presidência de Nicolle Lee, uma jovem que fala com brilho nos olhos e traz muita qualidade política nas suas colocações. O diretor James Erly também esteve presente.
Enquanto eram desenvolvidos os trabalhos no Fórum os EUA desferiram ataques a Somália, o que provocou a indignação de todos. Membros da Organização Somaliana para o Desenvolvimento Comunitário denunciaram a ação e afirmaram que os Eua estão interessados nas riquezas minerais do seu país, especialmente o Petróleo. Também o fato da Somália estar situada na região do Golfo Pérsico e ser rota dos países produtores de Petróleo na área, desperta a ganância imperialista. As ditas guerras civis são nada mais, nada menos que a materialização da velha política do dividir para melhor dominar. Desde 1993 os EUA tentam submeter a Somália pela força, mas na época, o povo impôs uma soberba derrota as tropas estadunidenses.
Fórum de autoridades locais.
Na condição de vereadora participei pela primeira vez do Fórum de autoridades locais, uma articulação que reúne prefeitos, vereadores, representantes de universidades, entre outros, com o objetivo de rticular e promover o diálogo entre governos locais e os movimentos sociais com vistas a definir políticas públicas mais eficazes para os problemas enfrentados pelas cidades na luta contra o neoliberalismo.
O Fórum foi aberto pelo prefeito de Nairobi, Dick Wathika, que discorreu sobre as principais ações de sua administração e os grandes desafios que a cidade enfrenta. Foi notada e criticada a baixa presença de africanos no encontro. O Fórum foi à África, mas a África não estava no Fórum, disse um dos participantes. Apenas São Tomé e Príncipe, Moçambique, Quênia e Sahara estiveram presentes. Por se realizar no continente africano esperava-se um número maior de países daquele continente. Havia representação da França, da Espanha, de Portugal, Itália, Venezuela, Brasil, Argentina e outros países.
O Encontro foi finalizado com a aprovação da Carta de Nairobi, evocando a solidariedade e a afirmação da luta contra o neoliberalismo e a afirmação da necessidade de aproximar os governos dos movimentos sociais na perespectiva de criar políticas enovadoras e pactuar o compromisso de todos com as cidades. O prefeito de Guarulhos, Elói Pietá, que representa a Frente Nacional de Prefeitos na Presidência da Comissão de Inclusão Social e Democracia Participativa da organização mundial de cidades, participou da mesa de abertura, representando Cidades e Governos Locais Unidos (CGLU) e o mestre Boa Ventura de Souza Santos, também se fez presente.